terça-feira, 1 de maio de 2012

Serenidade


Serenidade é profundidade. É quando a energia do pensamento, tão frequentemente dissipada pela expressão através dos sentidos, é direcionada para o mais profundo da mente. É quando ver com os olhos termina e ver com o olho da mente inicia; é quando ouvir com os ouvidos termina e o escutar com o ouvido interior inicia; é quando tocar com as mãos termina e tocar com os sentimentos inicia. Serenidade é viver sob a água, mas passar com alegria pela superfície. Com agitação na superfície e sem tocar as profundezas não existe serenidade alguma.

Por que a serenidade é importante? Porque a experiência da vida através dos sentidos é de extrema instabilidade. As mensagens que me chegam da vida sobre a superfície da água estão constantemente mudando e a grande velocidade. Algumas vezes, fico exposto ao prazer, mas mais frequentemente à dor. E às vezes as mensagens são conflitantes. Não há qualquer sistema no mundo, nenhuma dose fixa de experiência boa ou ruim. Eu simplesmente nunca irei saber o que me espera a cada dia.

A experiência da vida “sob a água” é bem diferente. É uma experiência que tem sua própria forma completa e pode ser completamente diferente do que a vida parece oferecer. E ainda, o profundo prazer que é obtido ao vivê-la pode nutrir minha reação a tudo que aconteça sobre a superfície. Não de um modo evidente. Eu não farei um estardalhaço se descobrir um entendimento repentino sobre o amor, mas isso trará tranquilidade e uma profundidade natural ao meu dia.

Como em todas as virtudes, há uma forma superficial de serenidade e uma forma real. Um rosto pode ter uma espécie de serenidade suave, uma expressão de calma e uma certa beleza, e nós dizemos: “Que rosto sereno ela tem!” Mas isto pode apenas indicar a ausência de pensamentos profundos. O sinal verdadeiro de serenidade não é tão visível no rosto, mas nos olhos. A suavidade do rosto está constantemente sob ameaça, mas os olhos dizem tudo. De fato, uma das melhores provas de serenidade é quando o rosto está emocionalmente castigado, mas os olhos retêm profundidade e tranquilidade. Ninguém pode evitar ser sacudido pela vida, mas ser “sacudido” e ainda assim ser capaz de “mergulhar” e tocar sua própria força, isso transparece apenas nos olhos. Quando uma pedra é jogada na vida de uma dessas pessoas – uma crítica, um problema, um desafio – apenas a superfície ondula. Nada mais. Atire até mesmo uma faca e o impacto será rapidamente absorvido, a água se acalmará novamente.

Há apenas uma ameaça para alguém com esta virtude: poluição. Poluição é quando uma atmosfera penetra na superfície da água e rouba as profundezas da sua clareza. Isso pode acontecer quando alguém me impressiona. Não é que eu seja atraído a ele através dos sentidos, mas seus pensamentos e ideias me tocam internamente, e suavemente eu aceito a presença de outros na parte mais profunda do meu ser, que deveria permanecer sagrada. Não é errado gostar das ideias dos outros. Na verdade, é bom. Mas deve haver auto-respeito suficiente para dizer não a interrupções sem fim; de outro modo, junto com o prazer de brincar com os pensamentos de outra pessoa, eu também começarei a dar água para seus conflitos. E de repente, eles também se tornarão os meus conflitos.

Há apenas uma atmosfera que eu invoco com grande alegria para dentro do meu eu submerso – e essa é a atmosfera do ser de Deus – porque uma das principais características de Deus é a constância e a leveza. Ele não procura mudar-me, apenas fortificar-me e dar força à minha solitude. É uma coisa bem curiosa que o ser mais poderoso do universo seja também o ser menos intruso. Ele não interfere. De fato, ele é o guardião da minha serenidade.

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