Serenidade é profundidade. É
quando a energia do pensamento, tão frequentemente dissipada pela expressão
através dos sentidos, é direcionada para o mais profundo da mente. É quando ver
com os olhos termina e ver com o olho da mente inicia; é quando ouvir com os
ouvidos termina e o escutar com o ouvido interior inicia; é quando tocar com as
mãos termina e tocar com os sentimentos inicia. Serenidade é viver sob a água,
mas passar com alegria pela superfície. Com agitação na superfície e sem tocar
as profundezas não existe serenidade alguma.
Por que a serenidade é
importante? Porque a experiência da vida através dos sentidos é de extrema
instabilidade. As mensagens que me chegam da vida sobre a superfície da água
estão constantemente mudando e a grande velocidade. Algumas vezes, fico exposto
ao prazer, mas mais frequentemente à dor. E às vezes as mensagens são
conflitantes. Não há qualquer sistema no mundo, nenhuma dose fixa de
experiência boa ou ruim. Eu simplesmente nunca irei saber o que me espera a
cada dia.
A experiência da vida “sob a
água” é bem diferente. É uma experiência que tem sua própria forma completa e
pode ser completamente diferente do que a vida parece oferecer. E ainda, o
profundo prazer que é obtido ao vivê-la pode nutrir minha reação a tudo que
aconteça sobre a superfície. Não de um modo evidente. Eu não farei um
estardalhaço se descobrir um entendimento repentino sobre o amor, mas isso trará
tranquilidade e uma profundidade natural ao meu dia.
Como em todas as virtudes, há
uma forma superficial de serenidade e uma forma real. Um rosto pode ter uma espécie
de serenidade suave, uma expressão de calma e uma certa beleza, e nós dizemos: “Que
rosto sereno ela tem!” Mas isto pode apenas indicar a ausência de pensamentos
profundos. O sinal verdadeiro de serenidade não é tão visível no rosto, mas nos
olhos. A suavidade do rosto está constantemente sob ameaça, mas os olhos dizem
tudo. De fato, uma das melhores provas de serenidade é quando o rosto está
emocionalmente castigado, mas os olhos retêm profundidade e tranquilidade.
Ninguém pode evitar ser sacudido pela vida, mas ser “sacudido” e ainda assim
ser capaz de “mergulhar” e tocar sua própria força, isso transparece apenas nos
olhos. Quando uma pedra é jogada na vida de uma dessas pessoas – uma crítica, um
problema, um desafio – apenas a superfície ondula. Nada mais. Atire até mesmo
uma faca e o impacto será rapidamente absorvido, a água se acalmará novamente.
Há apenas uma ameaça para
alguém com esta virtude: poluição. Poluição é quando uma atmosfera penetra na
superfície da água e rouba as profundezas da sua clareza. Isso pode acontecer quando
alguém me impressiona. Não é que eu seja atraído a ele através dos sentidos,
mas seus pensamentos e ideias me tocam internamente, e suavemente eu aceito a
presença de outros na parte mais profunda do meu ser, que deveria permanecer
sagrada. Não é errado gostar das ideias dos outros. Na verdade, é bom. Mas deve
haver auto-respeito suficiente para dizer não a interrupções sem fim; de outro
modo, junto com o prazer de brincar com os pensamentos de outra pessoa, eu
também começarei a dar água para seus conflitos. E de repente, eles também se
tornarão os meus conflitos.
Há apenas uma atmosfera que
eu invoco com grande alegria para dentro do meu eu submerso – e essa é a
atmosfera do ser de Deus – porque uma das principais características de Deus é
a constância e a leveza. Ele não procura mudar-me, apenas fortificar-me e dar
força à minha solitude. É uma coisa bem curiosa que o ser mais poderoso do
universo seja também o ser menos intruso. Ele não interfere. De fato, ele é o
guardião da minha serenidade.
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