Por muito tempo o mundo me provocou
à vontade. Causou raiva, frustração, ansiedade, medo. Eu era então pura impotência
e descontentamento.
Nas aulas de história meus sonhos
se edificavam e quebravam, repetidamente. Geografia e sociologia tampouco me faziam
algum bem. Devo, por outro lado, às aulas de filosofia e de português. Nelas
pude ler poesia libertária. Eram uns poucos versos, que a gente mal parava pra
sentir, mas que me faziam rir da realidade, rir do ser humano, poemas que me
davam a chance de debochar de toda a maldade do mundo e, assim, confortavam meu
peito sufocado com uma doce e profunda sensação de vingança.
Daí que comecei a escrever, acho.
A rima me chegou como uma coisa genial e irresistível. Depois o conforto de
desabafar foi me viciando na prática.
Como gostava de palavras, comecei
a dar mais atenção pras letras das músicas que ouvia e, aos poucos, fui
definindo minhas influentes preferências musicais. E a música sempre teve uma
vantagem sobre a poesia pra mim: com música se podia dançar. Mais tarde fui
descobrir a infinidade de movimentos de um poema silencioso, mas, naquele
momento adolescente, poder cantar e pular ao mesmo tempo na companhia de um som
(invariavelmente excitante) era a máxima felicidade.
Por isso foi fácil me persuadir a
me graduar em música. E foi ali, no começo difícil da vida universitária que me
dei conta de que, talvez, ao escolher estudar arte eu tivesse me separado pra
sempre do lado contestador da minha personalidade. Isso rendeu muitas crises
existenciais.
Passei cerca de um ano afastada
das “coisas políticas” que costumava perseguir. Depois, aos poucos fui me
envolvendo com elas de novo. Mas participar de reuniões, manifestações e
abaixo-assinados já não renovava a esperança do meu espírito sonhador.
Eu já tinha ouvido, assistido,
lido muita arte engajada, política, original e de improvável definição pra não
acreditar no poder da apreciação estética. Apreciação mesmo, não apenas fruição.
Me interessa nessa arte seu poder provocativo, sua possibilidade de mexer com a
memória, a empatia, o equilíbrio de cada um.
Tentando, há muitos anos, de
muitas maneiras, levar o mundo pra uma situação mais harmoniosa, percebi que
cada um tem sua metodologia revolucionária.
Alguns acreditam em violência,
coerção, dominação, hierarquização. Outros acreditam em oração, meditação,
submissão, auto-controle. A maioria acredita que sua existência humana não
implica em uma obrigatória interdependência entre os membros da espécie e tem
suas ações marcadas por elevados níveis de individualismo. Outros - sedutores -
acreditam na arte.
Algumas pessoas tem idéias
urgentes. Não são idéias geniais, tampouco causam efeitos previsíveis e
controláveis. São apenas prementes. Por isso não podem esperar sua vez na
inscrição pra falar na reunião, não podem esperar a aprovação no órgão
legislativo competente, não podem esperar o horário do noticiário noturno pra
chegar aos ouvidos de seus interlocutores. Ou melhor, ouvintes, porque essas
idéias são loucas e surdas. Não sabem como foi a reação do público, nem isso
interessa. Interessa falar. E rápido!
Aí elas falam como podem. Tiram sons
de diversos materiais. Dependuram coisas no teto. Se arrastam pelo chão. Pintam
muros sem cobrar ou avisar o dono. Escrevem palavras e desenham figuras nos
mais variados contextos. O dito fica então traduzido nesses canais efêmeros.
Palavras, cores, sons, gestos. Pouco mais que momentos. Irrepetíveis.
Quando falam, essas pessoas
sentem a harmonia que querem pro mundo e conseguem dormir bem. E elas só falam
pra não se afogarem em suas idéias transbordantes, pois - que fique claro - as
idéias nascem à revelia da agenda dessas pessoas. É um transtorno!
Mas as pessoas por detrás das
idéias guardam esperanças revolucionárias. Elas acreditam na arte como melhor
forma de falar. Porém acreditam, acima de tudo, nas outras pessoas. Esperam que
seus dizeres gerem reflexões, perturbações, transformações, descobertas. São pateticamente
crentes na capacidade humana de mudar.
Essa fé é a incurável moléstia da
alma artística de que me orgulho.
Nenhum comentário:
Postar um comentário