sábado, 8 de outubro de 2011

Arte ou Arte e Política ou Estratégias Revolucionárias ou Meus Porquês


Por muito tempo o mundo me provocou à vontade. Causou raiva, frustração, ansiedade, medo. Eu era então pura impotência e descontentamento.
Nas aulas de história meus sonhos se edificavam e quebravam, repetidamente. Geografia e sociologia tampouco me faziam algum bem. Devo, por outro lado, às aulas de filosofia e de português. Nelas pude ler poesia libertária. Eram uns poucos versos, que a gente mal parava pra sentir, mas que me faziam rir da realidade, rir do ser humano, poemas que me davam a chance de debochar de toda a maldade do mundo e, assim, confortavam meu peito sufocado com uma doce e profunda sensação de vingança.
Daí que comecei a escrever, acho. A rima me chegou como uma coisa genial e irresistível. Depois o conforto de desabafar foi me viciando na prática.
Como gostava de palavras, comecei a dar mais atenção pras letras das músicas que ouvia e, aos poucos, fui definindo minhas influentes preferências musicais. E a música sempre teve uma vantagem sobre a poesia pra mim: com música se podia dançar. Mais tarde fui descobrir a infinidade de movimentos de um poema silencioso, mas, naquele momento adolescente, poder cantar e pular ao mesmo tempo na companhia de um som (invariavelmente excitante) era a máxima felicidade.
Por isso foi fácil me persuadir a me graduar em música. E foi ali, no começo difícil da vida universitária que me dei conta de que, talvez, ao escolher estudar arte eu tivesse me separado pra sempre do lado contestador da minha personalidade. Isso rendeu muitas crises existenciais.
Passei cerca de um ano afastada das “coisas políticas” que costumava perseguir. Depois, aos poucos fui me envolvendo com elas de novo. Mas participar de reuniões, manifestações e abaixo-assinados já não renovava a esperança do meu espírito sonhador.
Eu já tinha ouvido, assistido, lido muita arte engajada, política, original e de improvável definição pra não acreditar no poder da apreciação estética. Apreciação mesmo, não apenas fruição. Me interessa nessa arte seu poder provocativo, sua possibilidade de mexer com a memória, a empatia, o equilíbrio de cada um.   
Tentando, há muitos anos, de muitas maneiras, levar o mundo pra uma situação mais harmoniosa, percebi que cada um tem sua metodologia revolucionária.
Alguns acreditam em violência, coerção, dominação, hierarquização. Outros acreditam em oração, meditação, submissão, auto-controle. A maioria acredita que sua existência humana não implica em uma obrigatória interdependência entre os membros da espécie e tem suas ações marcadas por elevados níveis de individualismo. Outros - sedutores - acreditam na arte.
Algumas pessoas tem idéias urgentes. Não são idéias geniais, tampouco causam efeitos previsíveis e controláveis. São apenas prementes. Por isso não podem esperar sua vez na inscrição pra falar na reunião, não podem esperar a aprovação no órgão legislativo competente, não podem esperar o horário do noticiário noturno pra chegar aos ouvidos de seus interlocutores. Ou melhor, ouvintes, porque essas idéias são loucas e surdas. Não sabem como foi a reação do público, nem isso interessa. Interessa falar. E rápido!
Aí elas falam como podem. Tiram sons de diversos materiais. Dependuram coisas no teto. Se arrastam pelo chão. Pintam muros sem cobrar ou avisar o dono. Escrevem palavras e desenham figuras nos mais variados contextos. O dito fica então traduzido nesses canais efêmeros. Palavras, cores, sons, gestos. Pouco mais que momentos. Irrepetíveis.
Quando falam, essas pessoas sentem a harmonia que querem pro mundo e conseguem dormir bem. E elas só falam pra não se afogarem em suas idéias transbordantes, pois - que fique claro - as idéias nascem à revelia da agenda dessas pessoas. É um transtorno!
Mas as pessoas por detrás das idéias guardam esperanças revolucionárias. Elas acreditam na arte como melhor forma de falar. Porém acreditam, acima de tudo, nas outras pessoas. Esperam que seus dizeres gerem reflexões, perturbações, transformações, descobertas. São pateticamente crentes na capacidade humana de mudar.
Essa fé é a incurável moléstia da alma artística de que me orgulho.

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