Vulnerabilidade
é poder
(Lari Ahmyo*)
O que em
mim é sensível, o que em mim se permite abrir, perceber, ultrapassar as
fronteiras da segurança ilusória e enfrentar o medo do desconhecido, é a mesma
parte de mim capaz de conectar-se com o todo, capaz de expandir-se a ponto de
sentir “ser deus”.
Ali onde me
sinto pequena e vulnerável, onde a minha criança chora porque se sente
assustada demais para pedir ajuda, ali onde tudo parece grande demais e os
medos crescem de debaixo da cama como sombras na parede do quarto, ali,
exatamente ali, reside também o meu poder.
É nesse
ponto, no enfrentar o monstro que se ergue, no tremer diante dele e ali poder
chamar o guia interior para manter-me em pé: é nesse exato segundo que podemos
colher o milagre se estamos atentos. Somente permitindo-me estar presente no
meu instante de maior terror poderei ver que o monstro que me assusta é um
brinquedo, cuja sombra foi amplificada pelo meu espelho. Somente ali, poderei
olhar pela janela e perceber que é o escuro da noite a permitir que possamos
ver as estrelas e redimensionar o universo nos parâmetros da sua grandeza. Saio
do meu pequeno para me lembrar que de cima, sou parte de um grande quadro, de
uma grande dança, e que meu grito sentido não perturbará o navegar dos astros.
Ao contrário, se o interrompo antes que ele estilhace o meu pequeno
ecossistema, antes que ele possa comunicar às minhas células o seu sinal de
alarme, em mensagem de pânico e caos, será o átimo de contemplação da grandeza,
o movimento da harmonia, a comunicar-lhe algo. Será então o universo a dizer,
“repara quanta paz existe no girar de um planeta”, “observa com qual aceitação
uma estrela fugaz explode no céu e desaparece, com qual desapego doa suas
cinzas à imensidão vazia sem se perguntar sequer sobre a morte, sem ter
percebido sequer um dia haver um corpo, e sem então sofrer na sua trasmutação
porque toda a sua consciência apenas habita o existir.”
No meu medo
há uma porta, e quando ele vem agradeço então a possibilidade de vê-la, e farei
ainda melhor se abraçar a ocasião para passar por ela. Na vulnerabilidade
recolho meus cacos, todo o meu ser que se alongara, se perdera, até não se
reconhecer mais em si, recolho todo esse material inutilizado para reuni-lo de
novo na extensão de meu umbigo, no centro de meu corpo, ali onde com um
movimento vigoroso de músculos reúno toda a minha força para chamar a
consciência para a matéria de novo e perceber num movimento simples o potencial
de contração presente na origem de toda vida, de todo ser. Eu habito o meu
centro, e mais do que isso habito cada parte de mim, toda a extensão de meu
corpo, para não deixar entrar nada que não venha de minha suprema consciência.
Sou a guardiã do castelo, e nesse momento defino, anuncio com firmeza na voz,
que nada entrará aqui sem as minhas boas vindas, sem o meu consentimento, nada
entrará aqui que não seja para preencher de luz e cor as flores que já
desabrocham no meu jardim. São bem-vindas crianças com luz a brotar da alma que
corram e preencham de som e alegria as bancadas entre as folhas, são bem-vindos
pássaros, que com seu canto me concedam a contemplação do puro espírito em
minha alma, são bem-vindas borboletas, telas vivas da arte do criador, espelhos
para o meu infinito potencial de criação.
Aqui, no
castelo de meu ser, de minha existência, eu habito em amor ao universo que
existe em mim, que sou eu, e escolho que a lei que impera aqui é a lei do amor.
Nenhuma folha se moverá e nenhuma palavra ecoará que não seja movida pelo sopro
de amor do que em mim é eco do criador. Que assim seja, pois assim me aproximo
de novo da minha soberana identidade, vasta como tudo que existe.
Nessa
grandeza, agradeço o medo que me abriu os portões de meu majestoso reino, ali
quando eu pensava que só existia o frio de uma parede de pedras. A cada vez que
existir em mim um prisioneiro, da dúvida, do medo, do rancor, da amargura, da
raiva, do desacerto, da desesperança, do desamor... a cada vez que existir em
mim um prisioneiro eu o farei trasnformar-se de novo em soberano, lembrando-lhe
que poderá criar um castelo tão real quanto sua presente prisão. De seu ser
vulnerável nasce o impulso de vôo, de oração. E é contactar o criador em sua
bondade infinita para ter um vislumbre de como remover com um sopro as pedras
de sua prisão.
Vulnerabilidade
é poder. É a mesma abertura, a mesma natureza, a apresentar-se a nós como um
presente de amor. É ela que bate à minha porta quando meu útero se derrama em
sangue, dizendo-me do cosmo desconhecido que habita dentro de mim. “Olha-te
dentro.” ela me diz. “Não vês que na matéria de teu sangue - o mesmo que associastes à dor, ao sacrifício,
ao sofrimento, à perda e à morte – está o potencial maior da própria vida? Não
vês que bem ali, onde os outros te podem ferir e te feriram, está também a tua
medicina, a tua única cura? Que do teu ponto de escuridão onde todas as dores
se reúnem, onde todas as mulheres que choraram ainda choram, onde todos os
gritos de desespero ainda ecoam, a fênix banha as asas em teu sagrado sangue e
alça vôo rumo à libertação.” É assim que o nosso corpo nos ensina, é assim que
a Grande Mãe falou a todas as mulheres em todos os tempos e fala ainda, porque
nós somos filhas e aceitamos em nosso útero a semente da sabedoria da vida,
porque um dia dissemos “sim” à
possibilidade desse milagre, dissemos “sim, eu aceito ser casa, porto seguro,
para que o espírito que me deu vida renasça em mim e continuemos a compor a
magnífica dança da criação.
Com meu
sangue dancei, com meu sangue chorei, com meu sangue pintei as paredes de meu
altar, aceitando a harmonia em mim, aceitando a morte até na dor, rezando em
voz alta à Mãe do Universo para que nos ensine a fazê-lo sem sofrimento, em
ressonância com sua natureza de paz, complascência, amor e paciência infinita.
Que possamos aprender a reconhecer em nós a vossa natureza de pura abundância,
Mãe, e que possamos nos lembrar, a cada vez que nos sentirmos ameaçadas e
vulneráveis, que já temos tudo, e que por sermos filhas, por habitarmos desde
sempre em ti, nada, nunca, nos faltará. E é justamente a abertura que nos faz
sentir medo que nos permite ser tudo.
Sendo
terra, sendo água, sendo mulher, aprendi que sou também abundância, e deixo
correr os rios de minhas entranhas em mim. Sinto-os percorrendo as minhas
pernas, vejo-os em cor de lava quando se depositam de novo na terra fria e ali
se consolidam e criam rochas que serão sustentação a nossas casas, em dois ou
dois milhões de anos, como nos recorda a natureza dos vulcões, não importa
realmente quando, se tudo existe já aqui. Rios de água cristalina, grandes
erupções, água que navega para retornar ao oceano de onde nasce toda a criação.
Repetimos em nós os mesmos milagres há mihares e milhares de vidas e ainda não
nos deslumbramos o bastante... Como pode o ser humano ser tão ínfimo e infinito
ao mesmo tempo, sem entrar em contradição?
Gratidão
pelo que em mim, como mulher, ainda chora, e pelo que em mim, como mulher,
escolhe a cura. Gratidão ecoa de mim na cor de minha caverna, de meu ventre
rubro-sangue. Gratidão por poder sentir gratidão por receber o meu sangue. Gratidão
de poder vivê-lo pelo que é. Eu ofereço uma de minhas lágrimas ao ventre de
cada mulher que ainda não experimentou sentir essa gratidão. Nessa manhã, em
que a verdadeira tinta de minha escritura é o meu sangue, esse é o presente que
ofereço ao mundo. Com as mãos em concha recolho de meu útero o filhote que se
prepara a seu primeiro vôo e, mesmo reconhecendo em suas pequenas asas o medo,
ofereço-o à imensidão.
Por nós,
mulheres, para que abracemos de novo o nosso poder. E pela nossa cura.
Lari Ahmyo*
Nenhum comentário:
Postar um comentário