"A despersonalização como a destituição do individual inútil
– a perda de tudo que se possa perder e, ainda assim, ser. Pouco a pouco tirar
de si, com um esforço tão atento que não se sente a dor, tirar de si, como quem
se livra da própria pele, as características. Tudo o que me caracteriza é
apenas o modo como sou mais facilmente visível aos outros e como termino sendo
superficialmente reconhecível por mim.
A gradual deseroização de si mesmo é o verdadeiro trabalho
que se labora sob o aparente trabalho, a vida é uma missão secreta. Tão secreta
é a verdadeira vida que nem a mim, que morro dela, me pode ser confiada a
senha, morro sem saber de quê. E o segredo é tal que, somente se a missão
chegar a se cumprir é que, por um relance, percebo que nasci incumbida – toda
vida é uma missão secreta."
A Paixão Segundo G. H.
Clarice Lispector
Glória da infância: a plenitude de se ter inteiramente para si. A criança tem a íntegra e pura mágica de estar se encaminhando sem saber.
Adolescentes são naturalmente tristes. A vaziez da puberdade é o apego primordial da humanidez: a perda da pacífica ignorância. Diante do mundo, o jovem investe sua energia abundantemente na construção de um conhecimento de si e da vida, louco por encontrar o caminhar leve que antes tivera. É a paixão pelo saber. Aprender se faz chave única para alcançar aquilo que - ele não sabe onde - esconde a felicidade que lhe pertence.
Quando adultos, então, é o fim. A intensidade das buscas juvenis por prazer, paz, coerência, sabedoria, sucesso e crescimento enfim exaurem o espírito humano com mais de 20 anos de dúvidas. É preciso fazer parte de alguma igreja, alguma empresa, alguma família, alguma categoria social e, autorizado pelo status de seu cotidiano, deixar as buscas tão importantes da sua identificação de si mesmo - primordiais na juventude - em nome da vida para levar. Efêmeros prazeres sensoriais balanceiam os desconfortos da rotina artificial e vão ocupando o tempo que o adulto anseia por não ver passar até que a morte, misericordiosamente, liberte-o do círculo vicioso de insatisfação que ele não rompeu.
Eis o estado em que me encontro. A fase adulta que teme a velhice arrependida. A fase que não pode mais fingir, perder tempo, esperar com a ingenuidade tão apropriada para dez, quinze anos atrás. A fase da seriedade e da realização de sonhos cultivados.
Ser alguém não basta. Ser quem eu sou é minha única possibilidade e, por prudência, não me arrisco a nada além disso. Esse quem sou é tão óbvio que preciso de uma mente obcecada por vícios e ilusões e de mãos para sempre cheias de terra e vento para distrair-me do destino e não passar rápido demais para o lado de dentro de mim donde saí e pra onde, unicamente, vou.
Acontece, vez ou outra, falha na segurança dessa fortaleza de mim mesma e vislumbro, estarrecida, a crueza da realidade. Mas logo o tempo volta pra debaixo do tapete e minha pele endurece, cristaliza e enterra em mil anos de distância os fósseis da minha alma. Mas um nome tão comum como olho, lua e fogo faz sentido nessa hora solitária em que o destino é apenas humano. Nada de Deus, o nome é consciência. Ciência não científica. Ciência de representar duas partes se encarando. Eu sendo uma e outra a outra. Eu tenho consciência da outra. E a outra de mim. Então, desmergulhada, fico livre mais um pouco de esquecer a nudez tão indizível do que é. E que faz parte de mim. Todas as partes, aliás.
Consciente, lembro e, às vezes, digo. Dizer tem a força de materializar. Quando não pesa, faz bem sentir a substância sonora e provar de fora pra dentro, pra variar. No mais, ponho um altar cheio de flores e velas, com cores, formas e texturas de beleza escondendo aquilo mais essencial, que obviamente nada tem a ver com natureza, nem luz, nem silêncio. Aquilo que, inefável, fala com a clareza absoluta da sensação de certeza. Com tudo isso, resta apenas cumprir os momentos e passar pelas horas, até que as horas todas passem por mim.
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