sexta-feira, 15 de maio de 2015

Como a morte me vê

“Não tenhas medo, não! Tranquilamente
Como adormece a noite pelo outono
Fecha os teus olhos, simples, docemente,
Como, à tarde, uma pomba que tem sono...

A cabeça reclina levemente
E os braços deixa-os ir ao abandono
Como também, arfando, ao sol poente,
As asas de uma pomba que tem sono...”
Florbela Espanca


O chão está varrido de dois dias e a poeira foi espanada tão logo o dia raiou, a roupa suja no banheiro é pouca e, de qualquer forma, eu quase nunca lavo em casa.

Porém, o sol encontra espaço para entrar pelas janelas e portas e coisa alguma é esquecida fora do lugar.

As visitas - bem-vindas – deixam sempre algo bom e nada custa arrumar tudo depois.

As paredes manchadas, os buracos pequenos no piso, as rachaduras do forro do teto são apenas sinais de tantos anos do digno trabalho protetor desse abrigo.

Contemplá-los é convocar as lembranças de um tempo bom e reconhecer uma trajetória.

No entanto, a história é abandonada sem hesitação agora.

O contrato venceu e é sem mais que entrego a chave.

O portão que se fecha às minhas costas canta,
finalmente, 
adeus.



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