“Não tenhas medo, não!
Tranquilamente
Como adormece a noite
pelo outono
Fecha os teus olhos,
simples, docemente,
Como, à tarde, uma pomba
que tem sono...
A cabeça reclina
levemente
E os braços deixa-os ir
ao abandono
Como também, arfando, ao
sol poente,
As asas de uma pomba que
tem sono...”
Florbela Espanca
O chão está varrido de dois dias e a poeira foi espanada tão
logo o dia raiou, a roupa suja no banheiro é pouca e, de qualquer forma, eu
quase nunca lavo em casa.
Porém, o sol encontra espaço para entrar pelas janelas e
portas e coisa alguma é esquecida fora do lugar.
As visitas - bem-vindas – deixam sempre algo bom e nada custa
arrumar tudo depois.
As paredes manchadas, os buracos pequenos no piso, as
rachaduras do forro do teto são apenas sinais de tantos anos do digno trabalho
protetor desse abrigo.
Contemplá-los é convocar as lembranças de um tempo bom e
reconhecer uma trajetória.
No entanto, a história é abandonada sem hesitação agora.
O contrato venceu e é sem mais que entrego a chave.
O portão que se fecha às minhas costas canta,
finalmente,
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