quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Porque não quero usar Tablet na sala de aula


O século XXI chegou até a humanidade com uma ilusória conectividade humana midiática e uma real desconexão interpessoal generalizada.

Preconceito, discriminação, assassinatos, abandonos, atentados, abusos, negligências, desprezo, ódio, indiferença protagonizam cotidianamente as telas de computadores, televisões, celulares, tablets mostrando a humanidade quão tecnológica é sua desumanidade.
A educação em muito é prejudicada pela invasão dos últimos inventos comunicacionais a vida das gerações mais novas, que dificilmente escapam de um contato precoce com televisão, celular e internet.

A educação familiar já há muito vem se abrindo a configurações familiares não-convencionais devido à inevitável fluidez da vida que engendra o novo sem parar, em tudo. Mas uma dificuldade nos lares em que a presença dos responsáveis não seja constante é evitar a influência dos meios de comunicação aos quais a criança tem acesso em sua formação humana.

Não se trata de censurar conteúdos ou limitar a exposição da criança a um ou outro aparelho de comunicação, mas de acompanhar, cuidadosamente, o relacionamento desse ser em pleno desenvolvimento de suas capacidades de viver e de uma indústria que domina, controla e conduz sem freios ou barreiras.

Nós, educadores, somos testemunhas de como os responsáveis tem falhado nesse acompanhamento e somos obrigados a lidar com os efeitos de uma convivência intensa dos jovens com a mídia nas salas de aula, no pátio, na estrada da escola... em todos os lugares, pois aqueles que tem condições de adquirir um não passam momento algum desconectados do mundo virtual dos celulares.

Acredito que as redes sociais, correio eletrônico, sites de compartilhamento de vídeos, sons, etc. são úteis em grande medida para a educação escolar e podem nos propiciar avanços metodológicos interessantíssimos para os arcaicos sistemas pedagógicos da rede básica de ensino. Mas a forma desenfreada com que esses recursos da internet - aliados aos celulares e à televisão - tem sido utilizados resulta em um conhecimento precário da juventude do potencial realmente educativo e transformador da internet, restando a eles apenas o entretenimento vaidoso, vazio e vão de forjar uma existência irreal inspirada por outras existências irreais.

Creio não ser impossível reverter em parte esse quadro ao acostumá-los a um procedimento eficiente de pesquisa, divulgação e partilha de informações úteis à coletividade, por meio de uma educação digital determinada e persistente. Tenho tentado fazê-lo desde o ano passado, utilizando o laboratório de informática e os equipamentos eletrônicos disponíveis na escola.

Mas vejo que persiste a imaturidade juvenil de se aperceber da apatia letárgica em que se encontram devido à uma dedicada atenção àquela virtualidade tentadora em que a poderosa mídia os aprisionou. Esse é o meu maior problema, especialmente com o Ensino Médio, que me parece ser a faixa etária mais profundamente anestesiada.

A minha disciplina trabalha, mais do que qualquer outra habilidade, a sensibilidade. E tem sido penoso ajudar os alunos do Ensino Médio até mesmo a notar a própria sensibilidade. Ás vezes, me parece utópica a ideia de alguma atividade mais refinada em que a sensibilidade deles possa ser desenvolvida e explorada em profundidade.

O nível de distração e desinteresse dos jovens de 15 a 17 anos é tão alto que tenho tido mais trabalho para envolver poucos deles do que muitos alunos do Ensino Fundamental.

Utilizar um tablet na sala de aula não me auxiliaria a resolver esse problema. Pois os recursos nele disponíveis são velhos conhecidos de todos os meus alunos e dispensáveis na minha escola, que conta com um laboratório de informática, uma sala com recursos midiáticos suficientes e, modéstia à parte, uma professora de artes constantemente atenta às informações úteis que a internet oferece à disciplina.

Antes pelo contrário. Desejaria que a escola fosse um refúgio da humanidade real, contra a farsa digital em que esses jovens vivem. Desejaria que na escola pudéssemos olhar olhos, tocar peles, falar vozes, ouvir vozes, risos, choros, entonações, confissões, declarações, diversões, sãos. Imbuídos de realidade, desejaria que a sã consciência de estar presente despertasse nesses jovens a humanidade que lhes vem escapando pelos buracos individualistas que somente o convívio lúcido, natural e livre com a coletividade pode restaurar.

Prefiro, ao imediatismo comunicativo, a paciência de ouvir e o cuidado para falar; à amplidão do alcance comunicacional, o cuidado de partilhar com justiça, atenção e prazer; à abundância de informações a demora em fruir um som, gesto, ideia para, então, conscientemente, se formar.

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