(...) “No primeiro tempo, quando a floresta estava ainda jovem, nossos antepassados eram humanos com nomes de animais e acabaram virando caça. São eles que flechamos e comemos hoje. Mas suas imagens não desapareceram e são elas que agora dançam para nós como espíritos xapiripë. Estes antepassados são verdadeiros antigos. Viraram caça há muito tempo mas seus fantasmas permanecem aqui. Têm nomes de animais mas são seres invisíveis que nunca morrem. A epidemia dos brancos pode tentar queimá-los e devorá-los, nunca desaparecerão. Seus espelhos brotam sempre de novo. Os brancos desenham suas palavras porque seu pensamento é cheio de esquecimento. Nós guardamos as palavras dos nosso antepassados dentro de nós há muito tempo e continuamos passando-as para os nossos filhos. As crianças, que não sabem nada dos espíritos, escutam os cantos do xamãs e depois querem ver os espíritos por sua vez. É assim que, apesar de muito antigas, as palavras dos xapiripë sempre voltam a ser novas. São elas que aumentam nossos pensamentos. São elas que nos fazem ver e conhecer as coisas de longe, as coisas dos antigos. É o nosso estudo, o que nos ensina a sonhar. Deste modo, quem não bebe o sopro dos espíritos tem o pensamento curto e enfumaçado; quem não é olhado pelos xapiripë não sonha, só dorme como um machado no chão. (...) Nos primeiros tempos, os brancos viviam como nós na floresta e seus ancestrais eram pouco numerosos. Omama transmitiu também a eles suas palavras, mas não o escutaram. Pensaram que eram mentiras e puseram-se a procurar minerais e petróleo por toda parte, todas essas coisas perigosas que Omama quisera ocultar sob a terra e a água porque seu calor é perigoso. Mas os brancos as encontraram e pensaram fazer com elas ferramentas, máquinas, carros e aviões. Eles se tomaram eufóricos e se disseram: "Nós somos os únicos a ser tão engenhosos, só nós sabemos realmente fabricar as mercadorias e as máquinas!". Foi nesse momento que eles perderam realmente toda sabedoria. Primeiro estragaram sua própria terra antes de ir trabalhar nas dos outros para aumentar suas mercadorias sem parar. Nunca mais eles se disseram: "Se destruirmos a terra, será que seremos capazes de recriar uma outra?". Quando conheci a terra dos brancos isso me deixou inquieto. Algumas cidades são belas, mas seu barulho não pára nunca. Eles correm por elas com carros, nas ruas e mesmo com trens debaixo da terra. Há muito barulho e gente por toda parte. O espírito se toma obscuro e emaranhado, não se pode mais pensar direito. É por isso que o pensamento dos brancos está cheio de vertigem e eles não compreendem nossas palavras. Eles não fazem mais que dizer: "Estamos muito contentes de rodar e de voar! Continuemos! Procuremos petróleo, ouro, ferro! Os Yanomami são mentirosos!". O pensamento desses brancos está obstruído, é por isso que eles maltratam a terra, desbravando-a por toda parte, e a cavam até debaixo de suas casas. Eles não pensam que ela vai acabar por desmoronar. Eles não temem cair no mundo subterrâneo. Porém, é assim. Se os "brancos-espíritos-tatus- gigantes" [mineradoras] entram por toda parte sob a terra para retirar os minérios, eles vão se perder e cair no mundo escuro e podre dos ancestrais canibais. Nós, nós queremos que a floresta permaneça como é, sempre. Queremos viver nela com boa saúde e que continuem a viver nela os espíritos xapïripë, a caça e os peixes. Cultivamos apenas as plantas que nos alimentam, não queremos fábricas, nem buracos na terra, nem rios sujos. Queremos que a floresta permaneça silenciosa, que o céu continue claro, que a escuridão da noite caia realmente e que se possam ver as estrelas. As terras dos brancos estão contaminadas, estão cobertas de uma fumaça-epidemia-xawara que se estendeu muito alto no peito do céu. Essa fumaça se dirige para nós mas ainda não chega lá, pois o espírito celeste Hutukarari a repele ainda sem descanso. Acima de nossa floresta o céu ainda é claro, pois não faz tanto tempo que os brancos se aproximaram de nós. Mas bem mais tarde, quando eu estiver morto, talvez essa fumaça aumente a ponto de estender a escuridão sobre a terra e de apagar o sol. Os brancos nunca pensam nessas coisas que os xamãs conhecem, é por isso que eles não têm medo. Seu pensamento está cheio de esquecimento. Eles continuam a fixá-lo sem descanso em suas mercadorias, como se fossem suas suas namoradas”.
Narrativa Yanomami, por Davi Kopenawa Yanomami
Tradução de Bruce Albert
Quais são as mais evidentes características do pensamento ocidental? Racionalismo, ceticismo, cartesianismo, evolucionismo, etnocentrismo. Com tais atributos nasceu na sociedade européia e, posteriormente, se espalhou por todas suas colônias impérios "a" ciência.
De acordo com a chamada ciência - universalizada pelo etnocentrismo imperialista, naturalmente - não há forma de conhecimento sem o uso da lógica racional cartesiana, suas metodologias experimentais, seus protocolos procedimentais, suas caracterizações normatizantes, suas classificações deterministas.
Ela necessita da escrita para se auto legitimar enquanto verdade. A transmissão do acervo de cultura produzido em uma sociedade passa a ser de exclusivo domínio daqueles dotados do domínio da escrita e da leitura, coisa não generalizada até hoje e menos ainda na época em que os meios de comunicação e locais de conservação de informações eram muito mais escassos e inacessíveis.
A religião do mundo ocidental se disfarça de cristianismo e suas derivações, mas, fundamentalmente, é a ciência. Não há, no senso comum, dívida alguma da legitimidade da ciência. Isso se evidencia nas estruturas, conformações e instituições sociais típicas como hospitais biomédicos, imprensa, engenharia civil, agricultura convencional, escolas. Nesse mundo científico em que os brancos se distraem com seus afazeres cotidianos (educar-se, profissionalizar-se, conquistar posições sociais privilegiadas, mantê-las, distinguir-se individualmente e por aí vai), não há espaço para ouvir os ancestrais, preocupar-se com violações ao equilíbrio ecológico, ouvir algo além da ânsia do próprio ego em possuir o máximo do que estiver disponível.
Por isso é que, enquanto os Yanomami procuram conviver com a sabedoria ancestral que emana da vitalidade florestal, da pureza das águas, da limpidez do céu e da integridade da terra, traduzindo em palavras cantadas, ouvidas, recriadas e preservadas nas pessoas que as buscam e as ressoam, os brancos, ensurdecidos de orgulho de seu conhecimento científico, perdem, em velocidade cada vez maior, proximidade com a única coisa de que não deveriam nunca se afastar: a memória.
A memória de quem são, de onde vivem, do que fazem, de onde vão. Os brancos destinam à ciências filosóficas, teosóficas, antropológicas questões que são, imemorialmente, gerais. Extra cientificáveis. São questões a que apenas sábios, como os indígenas, se detêm por anos, vidas, gerações inteiras, pacientemente, procurando ouvir, entender, aprender, lembrar.
Eles não esquecem e por isso, sabem. Os brancos, que esqueceram como ouvir, perdem tinta e papel tentando escrever palavras que não soam, mas ainda podem se lembrar, um dia, com os índios, como esvaziar o pensamento de esquecimento e concentrar em si as vibrações da sabedoria.
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