Certa vez existiu um homem
chamado Kasper Hauser. Ele cresceu numa prisão alemã no século XVII,
completamente sem instrução, mesmo nas habilidades mais básicas da comunicação
humana, e foi libertado com a idade aproximada de trinta anos. Foi então
colocado como objeto de exposição no centro de uma praça de uma cidadezinha com
uma carta em sua mão, escrita pelo carcereiro da prisão... e ali abandonado. A
carta dava informações sobre o crescimento de Hauser e convidava qualquer
família a adotá-lo.
Kasper Hauser parecia um
animal, grunhia como um animal, comia como um animal e foi recebido pelos
habitantes do vilarejo como um animal. Dez anos depois ele foi aclamado herói
nacional. Por quê? Porque por baixo da fala desarticulada e do barbarismo,
emergiu uma clareza mental profunda que intrigou muitos dos acadêmicos e
filósofos da Alemanha do século XVII. Ele era capaz de responder a questões que
os outros não conseguiam. Ele era um erudito da vida. Mas ele também possuía a
virtude da simplicidade.
Sem defender condições de
barbárie e animalismo, parece haver uma lição aqui. Kasper Hauser foi forçado
pelas circunstâncias a limitar totalmente suas necessidades físicas e, porque
estava isolado, era indiferente à opinião pública. Por essa razão, sua
sabedoria natural pôde vir à tona.
A meditação também exerce o
mesmo efeito. Ensinando a si próprio a liberar-se das cargas desnecessárias,
desenvolvendo amor por solitude interna, duas coisas acontecem. Primeiro, seu
estilo de vida assume uma simplicidade e naturalidade que por si só pode ser
uma fonte de cura para aqueles ao seu redor, e, em segundo, seus poderes de
percepção aumentam incrivelmente. É como ser capaz de enxergar de novo. Ocasionalmente,
há um desafio: por que você abandonou tudo? Mas o sentimento é que apenas as
negatividades foram deixadas. A riqueza das experiências acumuladas no passado
não foi rejeitada, apenas a dor. Alguém que se apega ao sofrimento nunca pode
ser simples.
No entanto, é um grande
paradoxo que a simplicidade venha de passarmos através de muitos estágios de
aprendizado. Ela é uma paisagem complexa antes de alcançarmos um mar calmo,
despojado, simples. É a virtude dos espiritualmente velhos e também a posse dos
fisicamente novos.
E talvez o mais comovente de tudo é que a simplicidade pertence a Deus, que contém dentro da Sua compreensão
todos os altos e baixos do panorama humano. Ouvir as palavras de Deus é como
ouvir alguém tocando uma escala ao piano, quando poderia tocar um concerto.
Apenas uma escala, mas tocada com perfeição. Isso é simplicidade.
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