domingo, 18 de março de 2012

Desapego

Muitos caminhos espirituais defendem um estado mental chamado desapego, no qual a pessoa afasta-se das preocupações do mundo e torna-se um observador da vida. Isto é considerado um meio de alcançar uma meta interior porque o liberta de distrações e de conflitos. O Raja Yoga também ensina o “desapego”, mas a imagem usada para explicar o conceito não é a do peregrino com os pés empoeirados escalando uma montanha, mas a de uma flor de  lótus.

O fato principal sobre uma flor de lótus é que ela tem suas raízes na lama. Ela não pode crescer sem a lama, e ainda assim suas pétalas são imaculadas. Isso é desapego. Desapego é ficar perto do que você mais quer se ver livre e usar isto para fazê-lo crescer. Não se separando de nada. Considere sua própria personalidade. Geralmente, há aspectos seus que ou você não percebe, ou simplesmente não gosta. Inconscientemente, você os distorce em algo atrativo. Por isso trabalho árduo numa pessoa frequentemente indica medo de desaprovação. Isto é diametralmente oposto ao desapego: fazer algo não pelo valor da coisa em si, mas para realçar sua posição pessoal.

A flor de lótus não transforma a lama em nada. Lama é lama. E a lama também contém os nutrientes necessários para ajudar no crescimento da flor. Acontece o mesmo conosco. Estamos numa situação da qual não gostamos – “na lama”. E, ainda assim, ela é provavelmente a posição mais segura que existe, se pelo menos conseguíssemos reconhecê-la, sem distorcê-la e então deixá-la “crescer-nos”. Ou, alternativamente, nós queremos nos libertar de alguém, ficar sozinhos, mas de alguma forma o relacionamento tomou conta de nós. A pessoa que nos é próxima agora é provavelmente o melhor professor que poderíamos ter, se pelo menos fôssemos capazes de perceber o “nutriente” na sua presença; se pudéssemos também reconhecer que estamos provavelmente focalizando um aspecto muito pequeno de sua personalidade e desprezando completamente o resto. Desapego é liberdade de pontos de vista e preconceitos desse tipo. Significa ver o quadro inteiro. Ou quando fazemos uma confusão a partir de algo e nos expomos a críticas: normalmente perturbamo-nos até termos capacidade de nos desapegarmos da tarefa na qual fracassamos, até pararmos de possuí-la e apenas apreciarmos seu próprio valor inerente, reconhecendo que de alguma forma ela será feita. Pintar por pintar, pela beleza de pintar, e não pela beleza da “minha” pintura. E pintar, certamente, continuará, para sempre, independente de mim.

Então desapego significa estar bem perto de nossos inimigos, responder a eles com sinceridade e esforço e ver quão rapidamente eles desaparecem, como animais selvagens dispersando-se suavemente diante da paz e do destemor. Por outro lado, desapego também significa não tocar, imediatamente distanciar-se, para que você possa ver as coisas de maneira adequada. Ser um meteorologista emocional, ser capaz de medir, prever e preparar. Desapego é estar livre do tempo e, mais importante, estar livre da perspectiva distorcida que coloca o “eu” no centro do universo. Em pequenas coisas, essa consciência ajuda muito. Você começa a perceber que quando alguém fala com você, você não é necessariamente o foco de atenção da pessoa, mas que ela traz consigo uma centena de outros pensamentos e preocupações. Você é apenas um ponto de apoio no caminho dela.

Desapego é uma virtude grandiosa. Ele traz segurança emocional, realismo e refrescamento. Ele faz os outros sentirem-se à vontade com você, livres para ir e vir sem alarde. Mas no momento em que você pára de amar a vida, então o desapego torna-se impossível, porque você começa a agarrar-se nas coisas que ajudam.

O melhor ensinamento do desapego vem de Deus, que vê tudo mas nunca pára de amar. Ele é melhor demonstrado pela flor de lótus que toca a lama, toca o fundo rochoso mas nunca perde sua beleza. Beleza significa manter-se crescendo – sempre.

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