Olá,
"carta" é modo de dizer "conjunto de palavras escritas pra alguém", porque, na verdade, isso é um email. Mas carta é um nome mais agradável de usar pra mim.
Você, por ser humano e saber ler, ou saber ouvir alguém que está lendo pra vc, enfim, saber compreender o sentido desse conjunto de palavras é menos desconhecido do que a denominação pesa, na verdade.
Na verdade, nada é o que é. Aos poucos vai a vida me convencendo disso. Ser é uma idéia boa. Ser é basicamente ter tudo. Ser dono, autônomo, independente, livre, tudo isso que soa como desbravador desimpedido ante um mundo de mistérios feitos pra você encontrar. É um jeito fácil de viver esse. No fundo, sabe? Na verdade. É que basta ter fé no destino. Aí a liberdade vira seu grande amor e tudo que é desconhecido atrai como imã, pois um otimismo reluzente ofusca qualquer hesitação. Como não gostar de uma vida fluente? Uma vida que se movimenta sem parar? Que tem desafios ininterruptos em fila e do lado de cá confiança e coragem de sobra? Essas duas aí vem por causa da fé nele, o destino, sabe?
Assim ficamos inconsequentes. As consequencias são, assim como as inconsequencias, planos e realizações do destino. Nós, aqui achando que tanto fazemos, tanto importamos, tanto somos, nós só aceitamos. Podemos sim achar que o vestibular, a formatura, a admissão, o contrato, tudo foi fruto no nosso esforço, da nossa perseverança, discipina, fé (!), mas aí, a gente vai e morre jovem na lua de mel, com 8 meses de gravidez, com 15 anos de idade, atropelado depois de ter alta num hospital, morre num tombo de bicicleta, logo após formar no mestrado... Aí é hora de sentir a realidade. Aí o destino é lembrado e até consultado - nem sempre sem ser muito ofendido. Na verdade, vemos que a vida é uma idéia. Como ser. Existir. Querer... Só idéias. Verbos. Nomes. O real é o nascimento, a morte. A fome, o perecimento. O parto. Na verdade, todas as nossas ilusões de controle da vida vão ralo abaixo quando nos banhamos na luz da atenção. Quando estamos alertas, acordados. Aí nós sentimos a verdade entranhando na pele, nas tripas, correndo o sangue todo atrás do nosso coração. Ela vem com uma frieza espetacular e varre tudo. Fica tão limpo que nem conseguimos pensar: Como? Por que? Pra que? Quem? Aonde? Nada cabe, nada vem. Nada importa. A vida é isso aí, aceite. Aceite. Veja. É. Foi, você não impediu ou impediria. É. Agora encare.
Mas como dizia, "ser" e "vida" são idéias. Pode-se pensar tudo como um sonho. Como uma aposta. Como uma brincadeira. Aí está o perigo do poder da mente humana. Cada uma pode realizar o que quiser, pois a realidade não passa de uma ilusão de cada mente humana. Já a verdade, aquela coisa única e imutável. Ela a gente só sente. Só sofre. Ela é tão gigantesca que não sabemos se está lá no mais interno imo do âmago essencial de cada vida, ou se é uma força externa universal que em tudo habita e a tudo controla. De qualquer jeito a verdade é a fonte, a origem, o infinito e a única real realidade que jamais será compreendida.
Daí não me interessa a verdade. Tamanha veracidade como aquela que é, na verade, a verdade é incabível mesmo pra uma personalidade pouco humilde como a minha. Não me interessam as perguntas primordiais. Elas são sintomas do desespero das mentes iludidas, aquelas que ainda acreditam que podem alcançar a verdade. Uma mente conformada como a minha sabe se calar nos momentos de desespero e pede apenas um pouco mais de paciência pra esperar o destino mandar algo mais.
A vida hoje é um passatempo razoavelmente excitante. Há momentos de prazer, momentos de tédio, uns outros momentos, menos sentimentais, mas há, viva, uma curiosidade fogosa pelo amanhã. Por mais escuro que esteja o céu, todo amanhecer me ganha as esperanças todas. Há sim satisfação no agora e ando colhendo o dia sem parcimônia. Mas amanhã... ah! Que vontade de vivê-lo! Há nele alguma mágica sedução que me alucina completamente.
Se a alegria me acompanha espero amanhã de fantásticas emoções. Se a tristeza me habita, a certeza de um amanhecer glorioso me mantém firmes os passos. E nos dias incertos, que não sabem o que são quando se vão pela noite adentro, sinto apenas uma grata esperança de um novo amanhã. Me custa pouco amar as promessas de mais que o amanhecer traz pra mim.
Então assim vivo eu. Esperançosa de amanheceres. Cada dia, acontecimentos, esperiências, respirações, ingestões, digestões, evacuações, encontros, desencontros (será?); corpo e voz sobrando e desequilibrando a intenção de ser. Tudo vem, me apaixona, me entra no peito coberto de amor e fica lá. Mas largo o peito toda noite, pobres coitados. Mal sabem que ando sem meu coração pros sonhos de sóis nascentes da minha vida. Assim é que consigo a leveza de viver com calma, "amiga da morte e paciente com a vida", brincando de idealizar coisas - ser, estar, viver - e sentindo as pistas que o destino deixa, em busca de caminahdas plenas e certeiras.
Gratidão!
Nenhum comentário:
Postar um comentário