Ser
o sol é ter olhos como ouvidos - sem pálpebras - que abrigam tudo, o bom e o
mal. É trazer pra dentro presentes e presenças. É dar energia, dar calor e luz,
ajudar a ver, não temer ofuscar ou queimar; puro fogo e brilho em todo ser.
O
sol lança raios em todos, todo o mundo. Em pessoas que curam, que enganam, que
lutam, que destroem. A todos serve da mesma forma. Reflete nas lágrimas de um
órfão faminto e no suor de um alpinista numa montanha.
Se
acostumou a iluminar lugares diferentes ao longo do ano, sem preferir um ou
outro e sem se incomodar por não alcançar certos becos, vales, cavernas.
Aceita, radiante, conviver com esses mistérios que não pode desvendar.
O
sol não tem identidade, não tem nome de batismo, preferências musicais, estilo
de vida, não tem educação, não opina sobre nada, não tem ídolos, gurus,
amuletos, não se apóia em nada. O sol não precisa de pilares, é tão leve que
fica no céu, pra além das nuvens.
Há
outras estrelas como o sol, brilhando a distâncias enormes. A luz do sol talvez
mal alcance algumas delas de forma que é difícil outra estrela saber o quão
maravilhosa é essa luminosidade. Mas o sol arde todos os dias com a mesma
força, sem desânimo pela falta de reconhecimento. É que reconhecer é conhecer
de novo o que já se conhece, então pra reconhecer uma estrela há que se ser uma
estrela também. Daí a solidão solar.
O
sol aceita brilhar mesmo assim. Entrega toda sua luz e calor sem temer o dia em
que, como estrela que é, cessará de brilhar e toda vida à sua volta silenciará.
O
sol não se apegou aos bilhões de anos que viu passarem; ciente do fim ele não
se deixa entristecer.
Sua
energia vigorosa revela na pele sensível: o sol vibra.
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